Drogas Nunca, Álcool Jamais!!!

Drogas Nunca, Álcool Jamais!!!

Meus heróis não morreram de overdose!!!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Na opinião do Bill.

4
Podemos escolher?

 Não devemos nunca nos deixar cegar pela filosofia fútil de que somos vítimas de nossa hereditariedade, de nossa experiência de vida e de nosso meio ambiente - de que essas são as únicas forças que tomam as decisões por nós. Esse não é o caminho para a liberdade. Temos que acreditar que podemos realmente escolher.

***

 "Como alcoólicos ativos, perdemos a capacidade de escolher se beberíamos ou não. Éramos vítimas de uma compulsão que parecia determinar que deveríamos prosseguir em nossa própria destruição."
 "No entanto, finalmente, fizemos escolhas que nos levaram à recuperação. Viemos a acreditar que sós éramos impotentes perante o alcool. Isso foi certamente uma escolha, aliás, muito difícil. Viemos a acreditar que um Poder Superior poderia nos devolver a sanidade, quando nos dispusemos a praticar os Doze Passos de A.A.". "Em resumo, preferimos estar dispostos, e essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito."

domingo, 25 de setembro de 2011

Na opinião do Bill.

3
Dor e progresso

"Alguns anos atrás eu costumava ter pena de todas as pessoas que sofriam. Agora somente tenho pena daquelas que sofrem por ignorância, que não entendem o propósito e a utilidade definitiva da dor."

***

 Certa vez alguém disse que a dor é a pedra de toque do progresso espiritual. Nós, AAs, podemos concordar com isso, pois sabemos que as dores decorrentes do alcoolismo como o desiquilíbrio emocional vêm antes da serenidade.

***

 "Acredite mais profundamente: Levante a cabeça para a luz, ainda que no momento você não possa ver."

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na opinião do Bill.

2
Nas mãos de Deus

 Quando olhamos para o passado, reconhecemos que as coisas que nos chegaram quando nos entregamos nas mãos de Deus foram melhores do que qualquer coisa que pudéssemos ter planejado.

***

 Minha depressão aumentou de forma insuportável até que finalmente me pareceu estar no fundo do poço, pois naquele momento o último vestígio de minha orgulhosa obstinação foi esmagado. Imediatamente me encontrei exclamando: "Se existe um Deus, que Ele se manifeste! Estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa!"
 De repente, o quarto se encheu de uma forte luz. Pareceu-me com os olhos de minha mente, que eu estava numa montanha e que soprava um vento, não de ar, mas de espírito. E então tive a sensação de que era um homem livre. Lentamente o êxtase passou. Eu estava deitado na cama, mas agora por instantes me encontrava em outro mundo, um mundo novo de conscientização. Ao meu redor e dentro de mim, havia uma maravilhosa sensação de presença e pensei comigo mesmo: "Então, esse é o Deus dos pregadores!"

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Na opinião do Bill.

1
Mudança de personalidade.

 "Com frequência se tem dito a respeito de A.A. que somente estamos interessados no alcoolismo. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro para completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade."

***

 Achávamos que as "circunstâncias" nos levaram a beber, e quando tentamos corrigir essas circunstâncias descobrimos que não poderíamos fazer isso à nossa maneira; nosso beber se descontrolou e nos tornamos alcoólicos. Nunca nos ocorreu que precisávamos nos modificar para nos ajustar às circunstâncias, fossem elas quais fossem.

sábado, 10 de setembro de 2011

AA e Profissionais da saúde.

UMA PARCERIA FUDAMENTAL
PROFISSIONAIS DA SAÚDE E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

Dr. Raul Castro Miranda
Médico Psicoterapeuta
Petrópolis/RJ

Se Voltaire (1694 1778) ainda estivesse vivo, talvez não reafirmasse que “os médicos se valem de medicamentos que pouco conhecem para curar doenças que conhecem menos ainda em seres humanos dos quais nada sabem”.
Afinal, de lá para cá a medicina evoluiu tanto, que a afirmação do renomado escritor, hoje, parece já não fazer mais nenhum sentido.
Mas, será sempre assim mesmo?
Se observarmos o que sabemos hoje sobre o alcoolismo, por exemplo, verificaremos que se, por um lado, estamos muito distantes da época em que acreditávamos que aqueles que bebiam demais eram seres degenerados ou estavam possuídos por espíritos malignos, por outro lado, devemos admitir que ainda não conhecemos e não conheceremos tão cedo alguns aspectos fundamentais dessa doença, como a sua causa, ou a sua cura, por exemplo.
Mas, se é assim, como lidar então com essa importante moléstia que, afinal de contas, não pode ser ignorada, já que é tão frequente e acomete uma em cada dez pessoas do planeta; é tão grave que só mata menos do que o câncer e as doenças do coração?
Sigmund Freud dizia que “só um homem que realmente sabe é modesto, pois ele sabe quão insuficiente é o seu conhecimento”.
Talvez seja disso que estejamos necessitados aqui: um pouco de modéstia!
Esclareço.
A formação dos profissionais especializados em alcoolismo (médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, conselheiros em DQ, etc.) tem por objetivo capacitá-los a compreender como funcionam o corpo, a mente e os principais acontecimentos da vida de um (a) alcoólico (a). Eles aprendem, por exemplo, que o (a) alcoólico costuma se alimentar muito mal (desnutrição), que o seu estômago costuma chiar (gastrite, úlcera), que o seu fígado tende a degringolar (cirrose), que os seus neurônios podem não aguentar (atrofia cortical), que o seu ser chega a delirar (delirium tremens), que os seus negócios teimam em sucumbir (falência, dispensa do trabalho), que os seus amores costumam esmorecer (distanciamento, separação), que os seus limites insistem em desobedecer (agressão, acidente), que as suas verdades valem tanto quanto as suas mentiras (decepção, calote), que as suas culpas “se mandam” rápido para debaixo do tapete (embora sempre permaneçam lá), que o seu choro e o seu sorriso podem impressionar (embora possam nada significar), que os únicos parceiros leais costumam ser os de copo (ainda que eles nunca possam ser chamados de amigos), enfim, que a sua vida, tal qual uma estranha ilha, é uma garrafa de álcool (grande) cercada de coisas (pequenas) por todos os lados...
Tudo isso, e muito mais, ainda, o profissional especializado pode e deve aprender. E se aprender com afinco, se dedicar-se com presteza ao seu ofício, poderá vira ser, em algumas ocasiões, a diferença entre a vida e a morte dos seus pacientes.
Uma coisa, entretanto, ele jamais poderá compreender. Por mais que tente, que se esforce que se dedique, ele jamais saberá, de fato, o que é SER UM ALCOÓLICO. Por isso, quando se der conta dessa verdade, ele deve deixar de lado os próprios preconceitos (e eles geralmente estão presentes, sim) e procurar conhecer, ainda que superficialmente, os Alcoólicos Anônimos.
Se tiver sensibilidade e boa vontade, ali ele descobrirá que todas as vezes que um alcoólico fala ou ouve o depoimento de outro alcoólico, realiza-se uma façanha que nenhum profissional não alcoólico jamais poderá realizar: a da transmissão, através da palavra, da única força no mundo capaz de ser respeitada por quem está tão acostumado a desrespeitar: a FORÇA DO EXEMPLO.
Não o exemplo do mestre ou do herói, sempre pronto a ditar regras de conduta, mas o exemplo do homem comum, que bebeu muito mais do que podia ou devia e que finalmente compreendeu que a atitude de largar a bebida é muito importante; sim, mas é apenas a primeira etapa de um processo de reformulação interna que tem por objetivo atingir uma outra coisa muito mais importante: A SUA SOBRIEDADE!
Se for inteligente e tiver juízo, o profissional especializado estabelecerá então com a Irmandade uma espécie de parceria informal que eu considero fundamental para o sucesso do manejo do paciente alcoólico.
Nela, fica “acertado” que enquanto os primeiros se ocuparão de cuidar do corpo e da mente desses enfermos, aos segundos caberá o exemplo, o apoio e o acompanhamento desses companheiros recém-chegados dos seus dolorosos caminhos de perdas e danos.
Que sejamos sempre bem sucedidos nessa empreitada!

Vivência nº 105 – Janeiro/Fevereiro/2007.

A Recuperação em Alcoolismo.

Dr. Alberto Duringer- Médico
Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes - Ex-Diretor do Hospital Central da Polícia Militar (RJ)


Parar de beber é acontecimento marcante na vida de qualquer alcoólico em recuperação. Quando associado ao dia em que ingressou em um grupo de Alcoólicos Anônimos, é muitas vezes data citada com regularidade nos seus depoimentos. Aniversários deste dia são motivos para comemoração, com troca de fichas e festividades variadas, mas o fato em si pertence ao passado.
Já a recuperação do alcoolismo, ou de qualquer outra doença crônica, não é apenas um episódio limitado no tempo, mas sim um processo, mais ou menos lento, em constante evolução no dia a dia, que exige reformulação interior, sem data marcada para terminar e que pode ser modificado ou interrompido a qualquer momento.
Há quem compare um alcoólico em recuperação a uma pessoa que sobe uma escada rolante que está descendo: se ele parar de subir, inevitavelmente descerá junto com a escada. Assim sendo, é engano imaginar que uma recaída comece no primeiro gole: ela é, na realidade um processo de perda de recuperação que pode terminar nele, a menos que seja detido a tempo.
Em qualquer doença crônica acontece a mesma coisa: diabéticos que interrompem a dieta, hipertensos que voltam a abusar de sal, reumáticos que deixam de fazer fisioterapia, são exemplos de doentes crônicos que interrompem o processo de recuperação e iniciam assim um processo de recaída, o que vai levá-los de volta à situação anterior.
Entendemos alcoolismo como enfermidade que se inicia primariamente como dependência química, consequência de muitos fatores que possam ter levado o indivíduo a beber intensa e/ou abusivamente. Atingida a área física, continua o gradual processo de adoecimento, agora alcançando também seu comportamento e atitudes, até que em um último estágio, o alcoólico perde seus valores ético-morais. Nesta última fase, a doença é então física, psíquica e espiritual.
Em qualquer doença crônica, não existe uma cura propriamente dita, isto é, não é possível reverter um dependente químico de álcool etílico em consumidor moderado ou "social" desta substância, já que seu organismo sofreu modificações que impedem o seu uso controlado. No entanto, é possível ao doente um retorno a uma vida plenamente normal, desde que se disponha a agir dentro de um processo de recuperação, o qual deve seguir as três fases do rumo natural de adoecimento:

1ª -  fase (recuperação física) -- abstenção completa de uso de álcool.
2ª -  fase (recuperação emocional) -- modificação de comportamentos e atitudes, visando encontrar um equilíbrio psíquico que o liberte da tentação de achar que o álcool possa ser solução para seus problemas.
3ª -  fase (recuperação espiritual) -- recuperar ou criar novos valores éticos, morais e espirituais, com o objetivo de se reconciliar consigo mesmo e com o mundo que o cerca, passando a ter um modo de vida sóbrio.

O sucesso que Alcoólicos Anônimos vem tendo desde 1935 na recuperação de alcoolismo deve-se a um programa de 12 Passos que segue esta sequência natural de ações, com a consciência de que elas só podem ser executadas pelo próprio doente, já que são todas processos interiores.

Isto não significa, porém, não precisar ele de ajuda externa. Já que existem alguns obstáculos importantes a serem vencidos, a começar pela negação da doença e/ou manipulações variadas, alem da própria crise aguda de abstinência. Passada essa fase inicial, que dura em média 10 – 20 dias, surge outra menos conhecida, mas nem por isso mais fácil, a que se convencionou chamar de síndrome de abstinência pós-aguda, de duração mais longa, caracterizada por pensamento confuso, as vezes caótico, enfraquecimento de memória, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, que pode perdurar ainda por muitos meses após o início da abstinência.
Em salas de A.A. encontram-se sempre novatos nesta situação, sofrendo ainda consequências do efeito tóxico do álcool etílico sobre o cérebro e sistema nervoso. Estas pessoas, bastante confusas, costumam apresentar um padrão rígido e repetitivo, muito centrado em apenas certos aspectos de suas vidas, geralmente ligados ao seu passado recente, cheio de culpas, vergonhas, autopiedade, raivas e ressentimentos. Elas têm grande dificuldade para se concentrar na leitura ou para memorizar alguma coisa do que lêem; suas emoções parecem adormecidas, ou pelo contrário, estão à flor da pele; seus afetos costumam ser pequenos, estão ainda muito voltadas ao seu próprio egocentrismo. Alguns parecem estar com suas emoções anestesiadas, não prestam atenção a quase nada em sua volta; outros estão inquietos, ansiosos, irritados, reagem com raiva a qualquer contrariedade menor ou comentário ligeiro sobre elas.
Felizmente, na maioria das vezes esta situação não costuma durar mais do que dois ou três meses, tempo necessário para uma recuperação física do sistema nervoso, mas neste período inicial estas pessoas precisam de muita ajuda externa para conseguir evoluir na sua recuperação. Entendendo isto, surgiram dentro de A.A. as reuniões para novos, nas quais é possível ajudá-los de forma mais eficiente e ao mesmo tempo explicar o que é a irmandade e como funciona. Também nesta fase, podem os profissionais de saúde ser muito úteis, ela acaba sendo de forma ideal, um amplo espaço aberto para que surja uma íntima colaboração entre A.A. e os profissionais da área.
Passada esta fase crítica, surge outra barreira no caminho do alcoólico em busca de sobriedade: tendo aceito os três primeiros passos, ele agora deve entrar em ação, para fazer seu inventário moral. Isto significa mexer nos fantasmas arquivados em algum velho baú da sua mente, confrontar-se com a realidade do seu Eu verdadeiro, descobrir virtudes e defeitos não suspeitados, enfim iniciar uma mudança no seu comportamento, atitudes e valores. Tudo isto desencadeia sempre uma reação muito humana e natural: medo e insegurança.
Não há quem não se sinta temeroso antes de fazer mudanças importantes: o organismo reage de forma típica, apresentando um conjunto de sinais e sintomas que os médicos chamam de stress, ao qual o alcoólico, em fase de abstinência pós-aguda, ainda é particularmente sensível. Por isso, nem sempre é útil um quarto passo precoce, é necessário que exista uma estrutura emocional minimamente já equilibrada, para que ele atenda seus objetivos.
Por outro lado, este medo não deve impedir indefinidamente o início do inventário. A melhor forma de enfrentá-lo é reconhecer sua existência e que sua presença é natural e até saudável; em seguida avaliar se ele tem fundamentos reais ou se está ancorado apenas nas fantasias da mente; finalmente, enfrentá-lo e iniciar uma ação efetiva.
Em alcoolismo existe sempre o perigo de ressurgimento da velha negação, sendo que desta vez trata-se da negação do medo. Pensamentos do tipo "está tudo ótimo", "parei de beber e isto é o principal" ou "eu já me conheço e não preciso fazer nenhum inventário" são perigosos porque induzem o alcoólico a não fazer o 4º passo ou a ficar adiando-o indefinidamente, procedimentos aliás muito parecidos com os que ele tinha em relação ao álcool, no tempo em que bebia.
Por vezes, ele regride na programação, percebe estar com vontade de beber, volta a se agarrar aos primeiros passos, aumenta a frequência de reunião, volta a se recuperar, até chegar novamente à barreira do inventário moral com as suas duas opções: enfrentar o medo e entrar em ação ou ver tudo se repetir mais uma vez. Muitos alcoólicos ficam, até sem saber direito o que está acontecendo, bastante tempo nesta gangorra emocional.
Vencido este grande obstáculo, a recuperação fica mais fácil e entra em fase de estabilidade. Agora existe um norte, um rumo a seguir, o alcoólico consegue ver a sua vida e o mundo que o cerca de modo mais equilibrado. Aos poucos, o álcool deixa de ser visto como possível solução para enfrentar problemas e passa a não ter mais muita importância – é um estado a que muitos chamam de sobriedade.
Ancorado na programação de A.A. o alcoólico encontra valores éticos e morais que lhe permitem levar existência emocionalmente muito mais tranquila, da qual a bebida está excluída. Só que isto não é um fato isolado de sua vida, como foi dito no início deste artigo, mas sim um processo, que se materializa de 24 em 24 horas, portanto, só por hoje. Não existe diploma de aprovação e um fim de curso em 12 Passos. O equilíbrio emocional depende de atividade e vigilância, pois como em qualquer outra doença crônica, recuperação é programa para toda vida.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

XII Encontro Feminino.

A Origem dos Doze Passo.

AS ORIGENS DOS DOZE PASSOS

O co-fundador de Alcoólicos Anônimos, Bill W., escreveu o texto básico de A.A. nos anos 30. Havia grupos surgindo em Akron, Cleveland e New York e ele achava que era necessário um livro para divulgar esse movimento, com o objetivo de atingir muitas pessoas. Bill escrevia cada capítulo, mimeografava e circulava para comentários. Depois do quarto capítulo e muita controvérsia, alguns membros encorajaram Bill a escrever exatamente como o processo de recuperação funcionava.

Deprimido e resfriado, ele estava deitado na cama quando resolveu escrever um capítulo chamado "Como Funciona". Numa tentativa de fazer um resumo do processo, fez uma lista das etapas, numerou e gostou da idéia de serem doze os passos. Sentiu que esse número era significativo.

Isto não foi uma revelação ou inspiração do momento, pois os passos vinham se desenvolvendo há muito tempo. Esse pequeno grupo de alcoólicos em recuperação surgiu dentro de um movimento religioso, os Grupos Oxford, que praticavam quatro absolutos: pureza, honestidade, amor e falta de egocentrismo*.

Os Grupos Oxford queriam modificar o mundo, modificando as pessoas e utilizavam o que consideram métodos dos primeiros cristãos para esse fim. Os "cinco procedimentos" desse grupo foram posteriormente adaptados aos Doze Passos e incluíram: (1) Rendição a Deus, (2) Ouvir a orientação de Deus, (3) Compartilhar essa orientação com outros membros, (4) Fazer reparação para as pessoas que tem prejudicado, (5) Depois de um exame cuidadoso, contar seus defeitos a outros, como uma testemunha de sua mudança ou como um método para aliviar a culpa.

Uma parte importante do apelo dos Grupos Oxford foi a Irmandade. Eles dependeram de reuniões caseiras, onde os seguidores entusiastas recolhiam os novos membros e isto mais tarde foi estrutura básica de A.A. Outra qualidade transformada em princípio de A.A. foi sua insistência em manter o programa num nível pessoal e simples, evitando discussões analíticas e abstratas, enfatizando o apelo do prazer positivo de uma "mudança de vida".

Um pastor Episcopal, Rev. Sam Shoemaker, muito envolvido nos Grupos Oxford, foi instrumental na ajuda do grupo incipiente para desenvolver um programa de seis passos:

1) Admitimos que estávamos derrotados, que éramos impotentes perante o álcool.

2) Fizemos um inventário moral de nossos defeitos ou pecados.

3) Confessamos ou compartilhamos nossas imperfeições com uma outra pessoa de forma confidencial.

4) Fizemos reparações a todos aqueles que tínhamos prejudicado devido à nossa bebedeira.

5) Tentamos ajudar outros alcoólicos sem buscar recompensa de dinheiro ou prestígio.

6) Pedimos a Deus, na forma em que achávamos que existia, a força para praticar esses preceitos.

Sempre foi reconhecido que esses princípios se baseavam em antigas práticas, como da confissão, e as Sagradas Escrituras, elementos religiosos diversos, como os Exercícios Espirituais de Santo Inácio (fundador da Ordem Jesuíta). Bill Wilson sempre falava que "ninguém inventou A.A. Tudo em A.A. é emprestado de um outro lugar".

Também a literatura popular entre os primeiros membros incluía: The Varieteies of Religious Experience, de William James; The Conversion Experience, de Lewis Browne; The Sermon on the Mont, de Emmet Fox; For Sinners Only, de A.J. Russel; A Santa Bíblia, na versão do rei James, especialmente: O Sermão da Montanha, A Oração do Pai Nosso, O Livro de James, O 13º Capítulo do Primeiro Livro dos Coríntios.

A forma original em que Bill Wilson escreveu tinha algumas diferenças, porque no início houve muita oposição aos Doze Passos. Um grupo achava que "colocou muito Deus nesses passos", e outros, "espiritualidade, sim, religião, não" e ainda um grupo a favor de "um livro psicológico". Aos poucos entraram num acordo. A palavra "ajoelhado" foi eliminada do Sétimo Passo, e a frase "Deus na forma em que O concebíamos" foi inserida. Porém, a maior concessão foi de denominá-los Os Doze Passos "sugeridos" e é assim que são até hoje. Contudo, essa palavra ("sugeridos") é geralmente eliminada quando os Passos são apresentados.

Acho importante reconhecer que os Doze Passos vieram de diversas fontes. Não tenho dúvidas de que Bill W. foi inspirado na maneira que juntou essas fontes. Porém, se nós vamos nos comunicar bem com profissionais e acadêmicos para explicar e promover um A.A. baseado nos Doze Passos têm um fundamento histórico muito rico.

___________________

(*) Em inglês: absolute, purity, honesty, love and unselfishness. É interessante notar que foi esse conceito de "absoluto" que eventualmente separou A.A. dos Grupos Oxford (The Spirituality of Imperfection - New York, Bantam, pág. 47). A idéia de perfeição era demais para os recuperandos em A.A. e, como fala um texto de um de seus livros, "pretendemos o progresso espiritual em vez da perfeição espiritual".

BIBLIOGRAFIA: Alcoólicos Anônimos, Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade, Children of the Healer (Brewer, P.C.), The breeze of the Spirit (Harris I.), Samuel M. Shoemaker Theological Influence on William G. Wilson's Twelve Steps, Spiritual Program of Recovery (Ann Arbor), A.A. Grapevine (1952), Os Doze Passos, The Twelve Eteps for Everyone (Members G.), Grateful To Have Been There (Wing. N), A.A. - The Way it Began (Bittman B.)


John. E. Burns

Vivência - Nov/Dez 95

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Alcoolismo Ontem e Hoje

Dr. Cláudio de Souza Leite
Membro da Sociedade Brasileira de Alcoologia
Médico Amigo de Alcoólicos Anônimos
 
Alcoolismo é uma doença progressiva que desmoraliza antes de levar à morte e atinge 13% da população. Podemos estimar em 20 milhões o número de alcoólicos no Brasil.
Beber abusivamente é a principal causa de problemas na vida atual: acidentes, traumas, violência familiar e urbana, mau desempenho escolar e doenças causadas pelo álcool (diabetes, cirrose, hipertensão arterial, câncer de boca, laringe, esôfago e pulmão etc...) são responsáveis por 30% de internações em hospitais gerais e 50% em hospitais psiquiátricos.
A doença do alcoolismo é o principal problema de saúde pública atualmente. Em todos os países que culturalmente usam bebidas alcoólicas são raras as pessoas que não entraram em contato com o álcool ainda crianças.
O álcool é considerado pela sociedade como inofensivo e até saudável. Todo brinde de saúde é feito com álcool, champanhe, vinho e cachaça. O álcool está culturalmente ligado ao sucesso, à beleza e à saúde.
No seio familiar ninguém se preocupa com um filho ou filha de 12 a 14 anos que chega em casa de pilequinho. O nome pilequinho já procura minimizar o problema.

O USO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS PELOS JOVENS


O hábito de beber entre os jovens é cada vez mais precoce e difundido. O jovem bebe para se desinibir e participar dos seus grupos. Beber tornou-se hábito frequente nos últimos 20 anos. É fácil avaliar, pois basta compararmos neste período o crescimento da produção de cerveja, de vinho e de cachaça. Além da liberdade do uso de bebida alcoólica com plena aceitação dos pais, o jovem é estimulado por uma agressiva publicidade na mídia. Os melhores anúncios da televisão são relacionados ao sucesso, à beleza e à juventude de quem bebe. Desencadeada sistematicamente, a maciça propaganda é um dos fatores responsáveis pelo crescimento descontrolado do uso da bebida alcoólica.
Não beber fará do jovem um careta, porque o efeito do álcool sobre o cérebro, de imediato, causa euforia, desinibição e coragem, dando uma falsa idéia de liberdade. Inserido em seu grupo, o jovem necessita atuar com desembaraço e desinibição e o álcool é perfeito para criar estas condições. O convívio em turmas faz parte da iniciação do jovem. Nelas, eles têm hábitos semelhantes e fazem sempre as mesmas coisas, inclusive beber.
Concomitantemente, começa a ocorrer neste jovem uma mudança hormonal que provoca alterações no comportamento. Este aumento hormonal na puberdade intensifica a necessidade de liberdade geral, de viver intensamente, aproveitar tudo ao máximo. Temos que considerar que este jovem nem sempre vem de um lar e de família estruturados, o que acentua sua necessidade de libertação da casa dos pais.

O USO DE DROGAS ASSOCIADAS


O álcool atua como depressor do cérebro com o uso continuado, provocando sono. E a sonolência impede o prazer e a euforia da primeira fase de sua ação. Para usar o jargão próprio dos jovens, o uso continuado do álcool corta o barato. A participação na festa ou no cotidiano dos bares fica prejudicada. Este é o momento em que entra em ação a necessidade de usar drogas estimulantes, como a cocaína e o ecstasy (droga à base de anfetamina). O uso concomitante destas duas drogas (álcool e cocaína) permite a prolongação do prazer e euforia iniciais, porque, sendo antagônicas, uma neutraliza a outra. O usuário permanece acordado e com disposição de participar ativamente da balada. Continua curtindo o barato. Esta associação é usada com frequência nas festas raves. O usuário pode ficar dias fazendo uso contínuo de bebida alcoólica com cocaína, sem dormir e com a falsa ilusão de extrema felicidade. Esquece, porém, que está usando as duas drogas em quantidades crescentes, que podem levar à dependência química em pouco tempo.
É fácil entender porque os casos de overdose ocorrem com frequência e com consequências que vão desde a hospitalização causada por problemas cardiorrespiratórios até a morte.
A perda total do controle agravado pelo uso das drogas não dá a menor chance ao usuário de decidir o que é melhor para ele. O cérebro está totalmente entregue aos cuidados do álcool e do pó, com a perda do domínio da vida. Nesta fase do envolvimento com as drogas surgem outros fatores de risco. Ao acrescentar a droga ilícita (cocaína ou ecstasy), o usuário de álcool corre riscos maiores e sofre mais consequências, como o aumento considerável da despesa com o programa. Afinal, a necessidade de obter a droga ilícita provocará seu envolvimento com traficantes, levando-o a subir morros para chegar às bocas-de-fumo. O consumo aumentado progressivamente faz o usuário chegar mais cedo à derrota para as drogas com total destruição da espiritualidade.

ACELERANDO O PROCESSO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA


O consumo associado de álcool com a cocaína diminui o tempo de entrada na dependência, aumentando a compulsão e a tolerância, caminho certo para a dependência química. A destruição física, mental e social é total, o que leva o usuário a precisar de ajuda urgente. Passa a ser a única opção, pois a alternativa é a morte. Sua vida e de seus familiares vira um terror sem precedentes. Jovens com 16/18 anos começam a ingressar com frequência em grupos de ajuda mútua Alcoólicos Anônimos (A.A.) e Narcóticos Anônimos (N.A.).
É difícil saber qual a droga principal. Sabe-se, entretanto, que a dependência ao álcool é bem mais difícil de ser controlada. Isto ocorre por ser o álcool uma droga lícita aceita e usada há séculos. Nossa herança genética ao álcool é bem mais antiga.
Conclusão: O aumento de jovens procurando ajuda em A.A. é um fato indiscutível.
O alcoólico típico do passado, com mais de 50 anos e dependente apenas do álcool, é cada vez mais raro buscando ajuda nos grupos de A.A..
A aceleração do processo de dependência está associada ao uso de uma droga depressora com outra estimulante.
Esta associação aumenta o número de jovens com 18 ou 20 anos já com problemas sérios de saúde física e comportamental que necessitam de tratamento imediato.
Um dependente químico jamais conseguirá controlar sozinho a sua compulsão pela droga.
As clínicas para dependentes químicos desempenham papel importante na fase inicial da recuperação.
Para a manutenção da recuperação, entretanto, é fundamental que seja feita em grupos de ajuda mútua que utilizam o Programa dos Doze Passos.
Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade de ajuda mútua com 72 anos de experiência, presente nas principais cidades de 180 países. Os melhores resultados de recuperação prolongada são obtidos em grupos de A.A.
Narcóticos Anônimos é outra Irmandade que surgiu a partir do programa e exemplo de A.A. É bem mais recente, mas já conta com resultados excepcionais. Não podemos subestimar o uso de drogas pelos jovens.
Ninguém pode decidir se um jovem vai usar droga ou não.
Durante sua formação certamente vai surgir um momento em que lhe será oferecida uma droga.
E não devemos esquecer que o álcool é uma droga.
O que fazer, então?
A única atitude possível é ele estar informado sobre a ação das drogas e suas consequências.
E forçar a decisão o mais rápido possível é melhor, pois a informação lhe chegará a tempo de obter os melhores resultados no processo de recuperação.
Infelizmente, esta informação ainda não faz parte do contexto educacional brasileiro.


Vivência nº109 – Set./Out.2007.

Chegada do A.A. ao Brasil.

Comemoração da chegada de AA ao Brasil - COMITÊ TRABALHANDO COM OS OUTROS:SEMANA DO CTO


COMITÊ TRABALHANDO COM OS OUTROS SEMANA DO CTO:

De 1° a 7 de setembro.

Em comemoração à chegada de A.A. no Brasil, a Irmandade comemora esta data intensificando os trabalhos de divulgação através do Comitê Trabalhando com os Outros.
APADRINHAMENTO DE GERAÇÃO A GERAÇÃO

Para levarmos a mensagem com eficácia é preciso que a tenhamos em nossos corações, e só a teremos em nosso interior se tivermos trilhado passo a passo o Primeiro Legado de A.A.

Sem uma boa recuperação não estaremos prontos para transmitir a mensagem aos que ainda sofrem e aos que virão a sofrer da doença do alcoolismo.

Sabemos que essa recuperação é lenta e proporcional ao nosso esforço, como disse o Dr. Bob, porém, sem uma boa reformulação pessoal conforme nos indicam os Doze Passos, pouco ou nenhum resultado positivo poderemos esperar de nosso trabalho de divulgação.

Será importante também que trilhemos intensamente o nosso Segundo Legado, as nossas Tradições, que nos ensinam a bem conviver em todas as circunstâncias e em todas as nossas relações, portanto nos dão uma essencial ferramenta para levar a mensagem de Alcoólicos Anônimos a todos os que dela precisem.

Nosso Terceiro Legado expressa em nossos Conceitos o nosso procedimento nos Serviços e é com essa sabedoria que nos organizamos e formulamos nossa ação, para levarmos a mensagem salvadora ao doente alcoólico.

Sabemos que a transformação pessoal daquele indivíduo alcoólico que não cumprimentava ninguém, que andava de cabeça baixa e cambaleando, ou gritando e tentando impor sua vontade onde estivesse, na rua, em casa, no edifício, no local de trabalho ou no bairro onde mora, e que passa lentamente a caminhar firme, de cabeça erguida, e que começa a cumprimentar as pessoas, a sorrir e a ser gentil, é a melhor mensagem direta e imediata, pois todos quererão saber o que aconteceu com aquele ser humano, e a resposta direta ou indiretamente virá: "Ele agora faz parte de Alcoólicos Anônimos".

O amor que transforma, e que tem origem nos Doze Passos espirituais de Alcoólicos Anônimos, faz com que tenhamos necessidade e prazer em levar a mensagem de esperança ao doente alcoólico que deseje recuperar-se, isto é um princípio da Vida que Alcoólicos Anônimos sabiamente adotou.

Não poderíamos esquecer, esse extraordinário meio de divulgação que é a Internet, que não só pode, mas deve ser utilizado por nós para levarmos a mensagem a quem ainda sofre, mas também lembrar que, para divulgações ali, precisamos urgentemente da prática de estudos e orientações, para que nada seja feito fora de nossas Tradições, e que venha pôr em perigo nossa Irmandade no futuro, pois é um veículo muito rápido e que atinge milhões de internautas no mundo inteiro, além da facilidade com que qualquer indivíduo pode encontrar um espaço para colocar seu Site, para divulgar o que, e como lhe possa interessar, sendo aí possível facilmente o uso indevido do nome de Alcoólicos Anônimos.

Nossa auto-suficiência, mesmo tendo muitas vezes deixado a desejar, deve mobilizar-nos para que tenhamos os recursos necessários para levarmos de graça uma mensagem que tem custo, e este custo deve ser pago por nós, sem coerção é verdade, mas por consciência de levar adiante o que recebemos, para que possamos conservar e aumentar essa dádiva, que é a sobriedade e a paz.

Ouvimos tantas vezes que em A.A. tudo é de graça, assim nessa afirmação isolada há um grande equívoco. Qualquer alcoolista que chega a A.A recebe a informação sobre a existência de nossa Irmandade, de um amigo nosso, quer seja ele um religioso, um médico, um psicólogo, um assistente social, um professor ou um profissional de qualquer atividade, ou mesmo de um site na Internet; alguém no passado ou mesmo no presente, e de diversas formas fez alguma coisa, e pagou para que essa informação chegasse a essas pessoas. Os nossos grupos pelo mundo afora, com suas salas bem arrumadinhas, mesmo sendo com simplicidade, existem porque muitos agiram e pagaram de diversas formas para que ali A.A. chegasse, se mantivesse vivo e à disposição do doente alcoólico. Como é fácil depreender, muitos pagaram para que aquele que chegue receba de graça a mensagem, mas nós temos o dever, mesmo sem sermos obrigados a isso, de contribuir para que os que virão tenham a mesma oportunidade que tivemos e quem sabe ainda mais.

Cada geração de AAs "deve" apadrinhar os que chegam, sem egoísmo e sem medo de que alguém os supere, pois é isto que precisamos aspirar, para que sempre tenhamos aqueles membros mais preparados e que com boa vontade queiram com amor levar esta mensagem salvadora aos doentes que o desejarem, gerando assim a continuidade genuína de Alcoólicos Anônimos.

Finalmente, quando estivermos com estes Trinta e Seis Princípios impregnados em nossas vidas, tendo assim membros preparados e projetos feitos em conjunto, além da experiência escrita de como fazê-lo, só precisaremos de boa vontade, tranqüilidade, harmonia, de ações permanentes e necessárias para que Alcoólicos Anônimos seja conhecido e se mantenha vivo até quando o Deus de cada um de nós assim o quiser.

Que a disposição do doente alcoólico do amanhã e que a sobriedade esteja sempre ao alcance do todos, como objetivo único de nossos serviços, em todos os seus aspectos, por todos os seres humanos, sem alarde espetacular, mas com amor, clareza, beleza e a simplicidade cativante de nossa Irmandade.

Anônimo

Vivência n° 97 Set./Out. 2005

"O ADICTO CODEPENDENTE"

"O ADICTO CODEPENDENTE"

O fenômeno da codependência não é privativo dos familiares dos adictos. Existem muitos alcoólicos e adictos a drogas que também são codependentes. E quando um adicto ao álcool e/ou às drogas é codependente de seu parceiro terá sérios problemas de ingovernabilidade sentimental e sexual, o que o levará a desenvolver síndrome de bebedeira seca.
Já falamos muito do menino rei. Esse imaturo emocional que tem muita dependência de sua mãe e de todas as mulheres-mãe com quem se relacione em sua vida seja noiva, amante ou esposa. Pois bem, este sujeito vai desenvolver uma grande dependência, o que o levará a tratar de controlar e dominar à mulher para não a perder. Isso o levará a desenvolver condutas inadequadas como possessividade, domínio, ciúmes, ameaças e, em ocasiões, violência verbal e física. Deixar o álcool ou as drogas não exime a muitas pessoas em recuperação de seguir manifestando estes claros sintomas de bebedeira seca.
Quando há uma relação de codependência é necessário perguntar-se se há um verdadeiro amor entre o casal ou é simplesmente necessidade. "Não é o mesmo dizer: amo-te porque te preciso, que dizer te preciso porque te amo" (Erich Fromm, A arte de amar).
Dizer "Te amo porque te preciso" é manifestação de codependência entre o casal, ao contrário dizer "Te preciso porque te amo" é manifestação de amor maduro.
O núcleo do problema psicológico do adicto codependente encontra-se em sua incapacidade para amar, ou simplesmente que ama imaturamente, como um menino que precisa da sua mamãe. Voltamos a citar Erich Fromm, de seu livro A arte de amar. O psicanalista define o amor maduro como "a expressão da produtividade que implica interesse, respeito, cuidado, responsabilidade e conhecimento, um esforço por crescer e buscar a felicidade da pessoa amada, enraizado na própria capacidade para amar". Ao mesmo tempo, Brenda Schaeffer, em seu livro É amor ou vício? Define o amor viciante como imaturo, possessivo, limitante, medroso e dependente.
A mesma Brenda Schaeffer acrescenta que o adicto ao amor é uma pessoa que procura apoio em alguém externo a ele mesmo, numa tentativa de cobrir necessidades não satisfeitas para evitar o temor ou dor emocional, solucionar problemas e manter o equilíbrio. "O paradoxo é que o vício ao amor é uma tentativa de conseguir o controle de nossas vidas e, ao fazê-lo, descontrolamo-nos ao dar poder pessoal a alguém diferente de nós mesmos."
O alcoólico que finalmente conseguiu tirar o álcool do centro de sua vida agora está girando ao redor de uma pessoa que ocupou o lugar que antes tinha o álcool. Por isto está em bebedeira seca, porque mudou o vício a uma substância pelo vício a uma pessoa. Curiosamente, muitos destes alcoólicos quando perdem a pessoa à que são adictos, voltam a recair no álcool ou nas drogas. Quanto trabalho lhes custa atingir a verdadeira libertação!

Você é um misógino?

Finalmente devemos dizer algo sobre o misógino, que é um tipo de codependente muito patológico e perigoso. Lamentavelmente entre os alcoólicos e os adictos a drogas existe uma grande quantidade de misóginos.
Um misógino é um homem que odeia as mulheres, mas que não pode viver sem elas. É uma forma de codependência extrema e patológica onde o misógino se sente o dono de sua parceira e, portanto a domina, submete-a e a controla totalmente. Qualquer tentativa de oposição a este tipo de ações por parte da parceira gera tensões e problemas muito sérios que podem chegar até a violência física.
As características do misógino são as seguintes:

- Precisa ter o controle absoluto da relação.
- São zelosos e possessivos.
- Para conseguir o controle recorrem à sedução, a chantagem, a manipulação, a ameaça, a intimidação, a humilhação e a agressão verbal e física.
- Mantêm permanentemente uma atitude de superioridade ante seu par a quem nunca dão razão.
- Nunca pedem desculpas. O misógino convence seu par de que o incidente não existiu.
- Sempre deslocam a culpa. Se algo sai mal e agride seu par, a culpada deve ser ela e é ela que tem que pedir desculpas.
- Encoleriza-se se seu par se queixa de algo. Ela não tem direito nem a reclamar nem a chorar.
- Quando sente que está perdendo o controle passa da violência psicológica à física.
- Reduz o mundo de seu par: ela não pode ter atividades nem amizades. Não pode ser ela mesma. Ele tem que saber tudo o que.
- Não tolera o término de uma relação. Sempre a estará espreitando e acossando. Considera-se o dono de seu par.

Não há que esquecer que a relação do misógino com seu par é uma simbiose neurótica, uma interdependência de um codependente com outra codependente. Ela também tem que trabalhar em sua própria doença para poder libertar-se. As principais características do par do misógino são as seguintes:

- São adictas ao amor.
- Não são ninguém se não têm um homem.
- São auto-suficientes e fortes em outras áreas da vida.
- São masoquistas: quanto mais às agridam mais se apegam.
- Mantêm a esperança que ocorrerá algo que vai mudá-lo.
- Vivem com medo e insegurança de perder seu par.

O misógino constitui uma das formas mais graves de bebedeira seca. O prognóstico destas pessoas é bastante reservado, pois muito poucos aceitam que o são e não querem mudar. O ciúme patológico e a síndrome da mulher maltratada são fenômenos associados à presença de um misógino na família.
Terminamos com uma frase de Bill W.; publicada em Na Opinião de Bill e retirada de Os Doze Passos e As Doze Tradições (Págs. 282 e 47 respectivamente): "Cada vez que uma pessoa impõe de maneira irracional seus instintos sobre outras pessoas, aparece a infelicidade. Se a busca da riqueza faz pisar em quem estiver no caminho, então a raiva, a inveja e a vingança serão igualmente despertados. Quando o sexo se desenfreia há um tumulto semelhante. As exigências descabidas de atenção, proteção e amor motivarão nas pessoas afetadas sentimentos de dominação ou de revolta, duas emoções tão doentias como as exigências que as provocaram. Este choque de instintos pode chegar a produzir desde um leve desprezo quanto uma grande revolta".

SÍNDROME DA BEBEDEIRA SECA - SBS

Doutor José Antonio Elizondo López